Morte de Orlando Zapata em Cuba

Há 38 anos que não morria um prisioneiro político cubano em greve de fome Orlando Zapata Tamayo foi preso em 2003 e condenado a três anos de prisão por desacato. O desafio às autoridades foi-lhe aumentando a pena. Morreu depois de 85 dias em greve de fome Dulce Furtado O prisioneiro político cubano Orlando Zapata Tamayo morreu num hospital de Havana ao fim de 85 dias de uma greve de fome que iniciara como protesto contra as condições prisionais em Cuba. Zapata, de 42 anos, foi admitido no hospital Hermanos Ameijeiras na semana passada, após ter sido transferido da prisão de Camaguey, quando o seu estado de saúde piorou. Estava a receber fluidos por via intravenosa, precisou a organização independente Comissão Cubana para os Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, ilegal, mas tolerada pelo regime. A morte ocorreu entre as 15h30 e as 16h locais de terça-feira (20h30 e 21h em Portugal) e foi a primeira de um preso político em Cuba por greve de fome desde 1972, quando o líder estudantil e poeta Pedro Luis Boitel morreu na prisão por inanição. "É uma grande tragédia para a sua família, para o movimento de direitos humanos e também para o Governo, pois seguir-se-ão protestos tanto em Cuba como fora", disse o director da organização que anunciou a morte de Zapata, Elizardo Sanchez, avaliando que o caso deste prisioneiro "mostra a arrogância totalitária que não mede o impacto humano dos seus actos". O mesmo grupo revelou que "uns 30 dissidentes foram detidos, alguns de forma arbitrária, em suas casas, sem ordem judicial", para impedir que participassem no funeral de Zapata, que decorreu em Banes, cidade a 840 quilómetros de Havana. Numa declaração de condenação, a Comissão Europeia afirmou "lamentai" profundamente a morte do prisioneiro político", sublinhando que a UE apelou "várias vezes" às autoridades cubanas para "libertarem sem condi ções todos os prisioneiros políticos" no país. Este objectivo continua a ser "uma prioridade", disse Bruxelas. A Amnistia Internacional classificou Zapata como um dos 65 "prisioneiros de consciência" no país. Segundo a Comissão Cubana para os Direitos Humanos, existem 201 prisioneiros na ilha - um número que baixou em um terço desde que Raul Castro recebeu o poder das mãos do irmão, Fidel. Com a morte de Zapata, Washington voltou a pedir a libertação de todos os presos, sublinhando "a injusta detenção de mais de 200 prisioneiros políticos". As autoridades cubanas consideram estes presos "mercenários" e "agentes" ao serviço dos Estados Unidos para desestabilizar o Governo cubano. "Homicídio judicial" A Comissão Cubana para os Direitos Humanos sustenta que as autoridades deviam ter forçado Zapata a alimentarse, podendo ter evitado a sua morte, e acusa o regime de ter levado a cabo um "homicídio judicial premeditado". "Só já à última hora é que o levaram para o hospital, quando já era tarde para o salvar", acusa a organização. "Conseguiram o que queriam. Mataram-no. Puseram termo à vida de um lutador pelos direitos humanos", condenou a mãe, Reina Luisa Tamayo, ao jornal El Nuevo Herald. Canalizador de origem muito humilde, Orlando Zapata era membro da organização de defesa dos direitos civis Directório Democrático cubana (ilegal) quando foi preso em 2003. Foi inicialmente apanhado na vaga de repressão contra a oposição em Março daquele ano, em que dezenas de pessoas foram acusadas de conspirar com os Estados Unidos para derrubar o regime de Havana e todas foram condenadas a penas pesadíssimas, que chegaram aos 28 anos de prisão. Na altura, porém, Zapata não foi julgado no chamado processo do Grupo dos 75 - mas condenado a três anos de prisão por desacato e desobediência. Mas, devido à atitude de desafio que manteve, foi sendo constantemente condenado em novos crimes, somando um tempo de prisão que chegou a quase 30 anos.

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