Vencer a Guerra, Ignorar a Paz - Sri Lanka

Lakruwan Wanniarachchi/AFP/Getty Images


"Foi uma das mais temíveis guerrilhas do fim do século XX, tida por invencível. Ridicularizou o exército cingalês durante 26 anos e humilhou a Índia, ao forçar a retirada do seu corpo expedicionário em 1990. A sua capacidade de ameaça parecia ilimitada. Os Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE) não hesitaram em assassinar um Presidente da Índia, Rajiv Gandhi (1991), e um Presidente do Sri Lanka, Ranasinghe Premadasa (1993), ambos em atentados suicidas cometidos por mulheres. Os Tigres anunciaram [...] a deposição das armas, o que há um ano seria inacreditável. [...] o Governo do Sri Lanka comunicou a morte do líder e fundador do LTTE, Velupillai Prabhakaran, 54 anos, e de outros dirigentes. O Governo cingalês aniquilou a guerrilha mas a vitória militar não resolve o conflito, que remonta à independência (1948) e decorre do confronto entre dois nacionalismos até agora irredutíveis.


Ascensão e queda

O jovem nacionalista Prabhakaran fundou em 1972 um grupo, os Novos Tigres, que quatro anos depois deu origem ao LTTE. Reivindica o primeiro assassínio em 1975 e começa a guerra civil em 1983. Submete ou elimina os rivais.

Em 1987, a Índia, que apoiava as reivindicações mas não a independência dos tâmiles do Sri Lanka, envia uma força de interposição para suster os combates e abrir caminho a uma negociação de autonomia. Foi assinada uma trégua mas os Tigres recusaram o desarmamento e passaram a atacar os indianos, obrigados a retirar em 1990, com mil soldados mortos.

Houve mais tréguas e várias negociações, designadamente as conduzidas pela Noruega. Sempre foram rompidas. Subitamente, em Janeiro deste ano, começa o descalabro dos Tigres. Depois de perderem a sua capital, Kilinochchi, acabam encurralados numa estreita faixa de terreno, sob a protecção de um "escudo humano" de 50 mil civis, através dos quais tentam negociar uma derradeira trégua.

Era tarde. O exército cingalês recusou todos os apelos internacionais para suspender as operações de forma a permitir socorrer os civis. Estes pouco contavam para ambas as partes.

Os Tigres caíram sob os golpes de uma ofensiva militar "clássica" e, como disse um general cingalês, "a sua queda foi tão espectacular como os seus ataques".



Prabhakaran engana-se


Do ponto de vista dos analistas indianos, o erro estratégico do LTTE remonta ao seu conflito com a Índia no fim dos anos 80. Humilhou as tropas indianas, que barravam o caminho à independência total (Nova Deli teme o separatismo do Tâmil Nadu) mas ofereciam uma via para um acordo de autonomia. Ao assassinar Rajiv, não apenas ganhou a hostilidade da Índia como perdeu simpatizantes no Tâmil Nadu.

O apoio militar indiano, em armamento sofisticado e treino, foi essencial para a vitória do exército cingalês.

Prabhakaran não compreendeu também o significado do 11 de Setembro de 2001, que o fez passar de guerrilheiro a terrorista. Em 2004, os guerrilheiros que controlavam a frente da costa Leste revoltaram-se contra o despotismo e a cegueira política do "tigre supremo". O chefe da área, o lendário "general Karuna", que insistia em negociar e suspender o terror, passou para o campo governamental.

O erro final é cometido em 2005. O então Presidente Ranil Wickremasinghe era o líder cingalês mais aberto à autonomia dos tâmiles. O "invencível" Prabhakaran opta pela política de "quanto pior melhor". Resolve impedir a reeleição de Wickremasinghe, cuja abertura negocial poderia dividir o campo tâmil e fazê-lo abdicar da independência. Intimida os tâmiles que, sobretudo no Leste, se propunham votar no Presidente, impondo o boicote das eleições. Oferece uma vitória tangencial a um nacionalista cingalês radical, Mahinda Rajapaksa, que se propunha aniquilar o LTTE.

A aposta de Prabhakaran foi um suicídio. Ao contrário do que pensava, as guerrilhas também podem morrer.


O conflito nacional

No entanto, a morte da guerrilha está longe de significar paz. O conflito não terminou, antes deverá mudar de configuração. O nacionalismo cingalês (sinhala) poderá surgir agora como principal obstáculo à pacificação. O que nos remete para a História.

A maioria cingalesa, maciçamente budista, e a minoria tâmil, maciçamente hindu, coabitaram durante séculos. A primeira, originária do Norte da Índia, está no Ceilão há 2500 anos. Os tâmiles, vindos do Sul, começaram a chegar há cerca de mil. Em ambos os grupos há minorias cristãs e muçulmanas.

Portugueses e holandeses não interferiram na organização separada das duas comunidades. Ao contrário, os britânicos, que conquistam o Ceilão em 1796, além de uma colonização sistemática procedem à centralização política. Serão acusados pelos budistas de favorecer, no ensino e na administração, tâmiles e muçulmanos.

Nasce no fim do século XIX uma ideologia anticolonialista que assenta num revivalismo budista. Em 1944, os britânicos instituem o sistema "um homem, um voto". Proclamada a independência, a maioria cingalesa assume o monopólio do poder, recusando o modelo de federalização e, até, a mera autonomia tâmil.

Esquerda e direita unem-se na "cingalização total" do país. O budismo torna-se religião de Estado. O cingalês é promovido a língua oficial única. Em 1961, as escolas tâmiles são nacionalizadas. Antes, Colombo tinha recusado a nacionalidade aos "tâmiles da montanha", trabalhadores trazidos pelos ingleses do Tâmil Nadu para as plantações de chá. Centenas de milhares serão deportados para a Índia. Os que ficaram só em 1986 terão direito a pedir a naturalização.

Os monges budistas encarnaram, e encarnam, o nacionalismo cingalês e a "unidade nacional". Em 1987, houve uma revisão constitucional. A 13.ª emenda permitia conceder autonomia aos tâmiles. Perante a oposição nacionalista, nunca foi aplicada.

O Presidente Rajapaksa prometeu aos tâmiles fazê-la entrar em vigor. Depois da vitória militar, tem autoridade para a impor. O problema é que a tímida 13.ª emenda já não satisfaz a reivindicação tâmil de larga autonomia.

Do lado tâmil é muito cedo para avaliar os efeitos da derrota dos Tigres. Os 26 anos de guerra criaram um vazio político. A emergência de uma nova liderança tâmil, dotada de legitimidade, é uma das mais difíceis condições de negociação. A preocupação não é que à derrota se sigam acções dispersas de terrorismo. É outra: se um bloqueio da negociação prolongar a "ditadura da maioria", a violência pode ressurgir.

A Índia, para quem a estabilização da ilha é um imperativo estratégico, será doravante uma aliada dos tâmiles."



Fonte: Público, 19 de Maio de 2009. Artigo de Jorge Almeida Fernandes





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