Raparigas são alimentadas à força para se prepararem para o casamento




O medo cresce nos destinos de milhares de jovens raparigas da Mauritânia rural, onde activistas afirmam que a prática cruel de alimentação forçada das jovens como preparação para o casamento está a regressar em força desde que uma junta militar tomou conta do país da África Ocidental.










Aminetou Mint Ely, uma activista pelos direitos da mulher, disse que até meninas de 5 anos continuam a ser submetidas à tradição do Leblouh todos os anos. A prática implica a tortura de engolir gigantescas quantidades de comida e líquidos – e de consumir o seu próprio vómito no caso de o rejeitarem.

“Na Mauritânia, o tamanho de uma mulher significa o espaço que ela ocupa no coração do seu marido,” declarou Mint Ely, presidente da Associação de Mulheres Chefes de Família. “Nós retrocedemos. Tínhamos um Ministério dos Assuntos das Mulheres. Tínhamos conseguido alcançar uma quota parlamentar de 20% dos lugares. Tínhamos mulheres diplomatas e governadoras. Há décadas que os militares nos têm feito andar para trás, para os nossos papéis tradicionais. Já não temos um Ministério ao qual recorrer.” A Mauritânia sofreu uma série de golpes desde a independência da França em 1960. No último, em Agosto do ano passado, o general Mohamed Ould Abdelaziz tomou conta do poder depois do presidente eleito o ter tentado despedir.

A advogada para os Direitos da Criança Fatimata M’baye reflectiu o pessimismo de Ely. “Eu nunca consegui levar a cabo um caso em defesa de uma criança alimentada à força. Os políticos têm medo de questionar as suas próprias tradições. Os casamentos rurais concretizam-se à luz do direito costumeiro ou são supervisionados por um marabou (sacerdote muçulmano). Não há nenhum envolvimento do Estado, logo não pode existir arbítrio para confirmar a idade da noiva.” No entanto, diz M’baye, a Mauritânia assinou os tratados que protegem os direitos da criança, tanto o africano como o internacional.

O Leblouh está intimamente ligado com o casamento precoce e envolve normalmente uma rapariga de cinco, sete ou nove anos que é obrigada a comer excessivamente para que atinja a corpulência e a forma curvilínea feminina, para que se possa casar o mais cedo possível. As raparigas de famílias rurais são levadas ao leblouh, a “campos de engorda” especiais onde mulheres mais velhas, ou então as tias ou avós das crianças, lhes administram doses de milho moído, leite de camelo e água em quantidades que as farão adoecer. A dieta típica de uma menina de seis anos inclui dois quilos de milho moído, misturados com duas chávenas de manteiga, e ainda 20 litros de leite de camelo. “A engorda é feito durante as férias escolares ou na estação chuvosa, que é quando o leite abunda,” relata M’baye. “A rapariga é retirada de casa sem entender o porquê de tal acontecer. Sofre, mas dizem-lhe que ser gorda lhe irá trazer felicidade. As mulheres mais velhas usam paus que enrolam à volta das coxas das jovens, para quebrar tecido e acelerar o processo.”

Outras práticas do leblouh incluem uma forma subtil de tortura – o zayar : colocam-se dois paus de cada lado de um dedo do pé, e quando uma criança se recusa a beber ou comer, a matrona aperta os paus um contra o outro, provocando dor. Um processo de engorda bem sucedido será, por exemplo, uma rapariga de 12 anos pesar 80 quilos. “Se ela vomitar, tem que o beber. Aos 15 anos vai parecer que tem 30.”, disse M’baye.

Historiadores dizem que a prática data dos tempos pré-coloniais, quando todos os mouros brancos da Mauritânia eram nómadas. Quanto mais ricos fossem os homens, menos as suas mulheres trabalhavam – preferencialmente, ela devia passar o dia sentada na sua tenda enquanto os seus escravos negros faziam as tarefas domésticas. Os antigos berberes louvavam as tebtath (estrias) como se fossem jóias. Ainda hoje, a lekhwassar (gordura à volta da cintura) é merecedora do orgulho lírico e as raparigas enviadas para os campos recebem o estatuto de mbelha. São ensinadas a sentar-se na posição de lótus, falar suavemente, utilizar utensílios e a imitar as vidas exemplares das mulheres de Maomé. A engorda de raparigas é praticado para além das fronteiras da Mauritânia, no norte do Mali e nas zonas rurais do Níger – áreas conquistadas, tal como metade de Portugal e Espanha, pela dinastia Almoravid no século XI. A prática da engorda também é levada a cabo no estado de Calabar, Nigéria, e no norte dos Camarões.

O ressurgimento da prática na Mauritânia rural é um retrocesso deprimente para os activistas depois do aparente efeito tangível das campanhas de formação e sensibilização. “O desafio que enfrentamos é que estas raparigas vivem em áreas rurais e não têm acesso à informação,” disse Ely. “Até ao golpe militar no ano passado, tínhamos feito progressos. Há dez anos atrás fizemos campanhas informativas acerca dos perigos das doenças cardiovasculares e da diabetes. O governo até apoiou na condenação da engorda.” Muitos mauritanos da classe média, dentro de uma população de, estimadamente, 3 milhões, afirmam que a prática de alimentação forçada deixou de existir.

O cientista político Mohamed el-Mounir, 38 anos, afirmou que a influência ocidental eliminou o fascínio pela gordura feminina. “A engorda é uma coisa dos anos 50. As raparigas dos dias de hoje vêem desfiles de moda na televisão. Os modelos delas são actrizes americanas ou cantoras libanesas com vestidos sensuais. A raparigas praticam desporto. Sim, os homens mauritanos gostam de mulheres ligeiramente redondas. Mas não as queremos, de nenhuma forma, obesas.”
A consultora de saúde e desenvolvimento Mounina Mint Abdellah, de 51 anos, afirmou que foi vítima de alimentação forçada enquanto criança pela mão da família da mãe. “As coisas mudaram imenso. Quando eu saí da escola em 1980 teria sido impensável para mim estudar no estrangeiro. Mas agora, 30 anos depois, a minha filha vai fazer o mestrado em França. Devemos muito ao facto de hoje em dia se esperar que todas as raparigas frequentem a escola. Estas mudanças tiveram um impacto tremendo nas práticas ancestrais. A engorda parece estar ultrapassada para uma grande parte da sociedade mauritana.”

Mas Ely e M’baye insistem que o “ideal” de gordura está de volta. Ely menciona ainda as práticas de engorda levadas a cabo por algumas mulheres adultas, que põem em risco as suas vidas. “Para continuar gordas, como adultas, tomam hormonas animais ou compram medicamentos com efeitos secundários que aumentem o apetite. Uma mulher morreu no hospital de Nouakchott na semana passada. Receio que este problema ainda seja uma realidade muito comum entre nós.”



FONTE: The Guardian, 1 de Março de 2009
http://www.guardian.co.uk/world/2009/mar/01/mauritania-force-feeding-marriage

Tradução de Marta Pereira

2 comentários:

Tânia Alves disse...

Que horror..

Ana Rute disse...

o que posso fazer para ajudar?