As mulheres do conflito liberiano


A Libéria viveu sob conflito civil entre 1989 3 1997, e novamente entre 1999 e 2003. Mulheres e raparigas constituíam, segundo dizem as estimativas, entre 30 a 40% das forças de combate, o que se traduz num número absoluto que se situa entre os 25 000 e os 30 000 combatentes femininos, sendo que a maioria não o fez por opção mas sim pelo uso da ameaça e da força. No entanto, e principalmente no segundo conflito, muitas mulheres participaram voluntariamente. Fizeram-no por entender que a posse de armas as tornaria menos indefesas face à violência sexual, para se vingarem da morte de familiares, por pressão do grupo, por ganhos materiais, e pela sua sobrevivência. As mulheres desempenharam vários papéis no conflito liberiano, foram desde comandantes até porteiras, espias, escravas sexuais, cozinheiras e mães.

As consequências da violência e do abuso dos direitos humanos perpetrado contra as mulheres e raparigas durante o conflito são devastadoras. Muitas continuam a sofrer, tanto física como psicologicamente, com os duros e desumanos tratamentos que lhes foram dados durante a guerra. Poucas têm acesso a cuidados médicos apropriados num momento em que são urgentes tratamentos a longo-prazo. Estas mulheres e raparigas sofrem também com a discriminação que lhes é feita no seu próprio país, e carregam o peso da vergonha por terem desempenhado papéis ou cometido actos tidos como inaceitáveis para uma mulher na sua sociedade. Frequentemente viúvas ou abandonadas, têm de enfrentar sozinhas condições e responsabilidades assoladoras, nomeadamente para com os filhos, que são muitas vezes fruto de violações. Muitas não possuem formação nem emprego, têm poucas aptidões e estão dependentes de amigos em relação ao alojamento. As raparigas mais novas, especialmente as jovens mães sem qualquer tipo de assistência, são particularmente vulneráveis.

É necessário que se compreenda a gravidade deste contexto para garantir que, no futuro, os programas de desarmamento, desmobilização, reabilitação e reintegração (DDRR) na Libéria possam ajudar as mulheres a tornarem-se membros mais produtivos na sociedade. Em 2003, após o final do conflito, deu-se início a um programa DDRR. Oficialmente, quando a fase de desarmamento e desmobilização acabou, no final de 2004, mais de 103000 ex-combatentes foram desarmados, e dentro destes, aproximadamente 22000 eram mulheres e 2740 raparigas. Apesar deste número ser alto comparativamente com outros programas DDRR, crê-se que represente apenas uma fracção do número total de mulheres e raparigas que participaram no conflito.

Na Libéria, apesar da intenção inicial do DDRR de assegurar a participação feminina e de focar as suas necessidades especiais – através da inclusão de referências às mulheres e crianças como grupo especializado – a realidade é que o programa falhou largamente, respondendo de uma forma muito mais abrangente às necessidades do sexo masculino. Milhares de mulheres formalmente associadas com as forças de combate não participaram no programa por razões como falta de informação sobre o processo, manipulação por parte dos comandantes, e ainda por escolha própria. Algumas das mulheres que participaram no DDRR foram mal-tratadas por oficiais designados da ONU e não receberam tratamento médico adequado durante a fase de desmobilização.

Para além disso, as mulheres continuam a estar sujeitas a abusos de direitos humanos e estão sob alto risco de violação e outras formas de violência sexual, incluindo exploração e abuso nas escolas, nas casas, nas comunidades. O governo liberiano tem que tomar medidas efectivas relativamente a estes assuntos.



FONTE: Relatório Liberia: A flawed process discriminates against women and girls, Amnistia Internacional, Março 2008

Mais info em: http://www.amnesty.org/en/library/info/AFR34/004/2008/en



Acção!

O futuro das mulheres liberianas pode passar pelas nossas mãos. O governo da Libéria não se pode desresponsabilizar do flagelo do pós-guerra! Acreditando no poder da palavra e do esforço conjunto, sugerimos a escrita de cartas aos responsáveis máximos da Libéria mostrando a nossa indignação perante a violação dos direitos das mulheres e apelando, por exemplo:

- por um maior empenho no tratamento das consequências físicas e emocionais das violações sexuais sofridas pelas mulheres liberianas;
- pelo fomento cooperação com grupos de mulheres e mulheres dirigentes para garantir as necessidades básicas de mulheres e crianças nas zonas rurais;
- pela promoção da formação e do acesso ao micro-crédito como parte de uma estratégia de reintegração.

Por cerca de 80 cêntimos apenas (selo postal) podemos fazer parte deste movimento. Disponibilizámos, de seguida, uma carta-modelo mas a personalização é altamente incentivada! O que se pretende é uma mobilização global, mas simultaneamente individualizada – diferentes vozes pela mesma causa: a dignidade da condição feminina.

As cartas devem ser enviadas para o seguinte endereço:
The Liberian President
Her Excellency Ellen Johnson Sirleaf
Executive Mansion
P.O. Boc 9001
Capital Hill, Monrovia
Republic of Liberia



Partilhem aqui as vossas próprias cartas!





Your Excellency,

I am writing to acknowledge the efforts made by the Government of Liberia and international community to ensure the needs of women associated with the fighting forces (WAFF) and girls associated with the fighting forces (GAFF) are met. I understand that a more gendered and comprehensive approach to the final phase of the National Commission for Disarmament, Demobilization, Rehabilitation and Reintegration (NCDDRR) programme was adopted in October 2008 and that 36 percent of the people participating are women from all 15 Liberian counties. However WAFF and GAFF continue to face challenges of reintegrating into society. From July- November 2008, Amnesty International launched a film screening tour of Women of Liberia: Fighting for Peace, which highlights how women and girls continue to face overwhelming difficulties and responsibilities in post-conflict Liberia. Amnesty International worked closely with LICONGO (a coalition of Liberian organizations), the NCDDRR and two women featured in the film. There were screenings in all 15 Liberian counties targeting WAFF and GAFF, women’s organizations, the Ministry of Gender and other interested parties. Following the screenings, discussions were held with the audience regarding issues raised in the film and what WAFF and GAFF still require for full reintegration.

I congratulate the NCDDRR for including more women’s groups in the rehabilitation process. However, Amnesty International found that women’s groups often lacked training and capacity to fully reach out to WAFF and GAFF. Amnesty International also found that where psycho social counselling is available, it is extremely limited. Even where women’s organizations are able to provide counselling, they have limited funds and capacity to sustain long term care.

Many women that Amnesty International spoke to continue to experience symptoms and pain from sexual violence and rape, and require medical treatment. Since the war, incidences of sexual violence against women and girls in families, schools and communities continue to rise. Few women have access to appropriate medical care and many are poorly educated, largely
untrained and jobless.

I ask that you please consider Amnesty International’s recommendations to continue reintegrating women and girls from post-conflict Liberia into society.

Amnesty International calls on you to:

• Encourage the NCDDRR to increase the capacity of women’s groups;

• Ensure that specific gender dynamics related to access to land and housing are considered;

• Ensure that psycho-social counselling is available in communities to all those (women, men and children) who need them;

• Ensure that medical facilities are accessible to women experiencing particular health problems related to their experience of conflict;

• Ensure that education and training programmes are accessible and flexibly designed to meet the needs of women and girls, including ensuring that funding is allocated for child care and/or other necessary arrangements, to allow women and girls to participate in training;

• Ensure that micro-credit schemes and business training are options within the overall reintegration package.


Thank you for your attention on such an important issue.
Yours faithfully,



3 comentários:

*VirGInia* disse...

Muito bem Marta! Parabéns pelo bom trabalho!
Até breve :)

Txikia, a pequena disse...

Parabéns Marta!
Keep up the good work :)

beijinhos*

Txikia disse...

Sara Cruz :)

Desculpa, quase me esquecia deste detalhe!*