Greve de Fome continua em Guantánamo

Por Robert Mackey

Binyam Mohamed
Binyam Mohamed em Londres no ano 2000.

Uma advogada militar dos Estados Unidos que representa um dos 242 detidos em Guantánamo disse a um jornal inglês que, incluindo o seu cliente, “pelo menos 50 pessoas estão em greve de fome, e 20 das quais estão já em perigo” no centro de detenções da Baía de Guantánamo.
A advogada, a Tenente-Coronel da Força Aérea Yvonne Bradley, disse ao The Observer, o jornal de Domingo do The Guardian, que o seu cliente, um Etíope nascido no Reino Unido e chamado Binyam Mohamed, está em perigo de vida. O “The Observer” acrescenta que, de acordo com testemunhas, os detidos em greve de fome “são atados a cadeiras e forçados a comer, e agredidos caso se neguem a fazê-lo ou resistam.”
Mohamed está em greve de fome para protestar contra o facto de ainda estar preso em Guantánamo, quatro meses depois de as acusações contra ele terem sido abandonadas.
Como afirma John Schwartz na sua reportagem de hoje no New York Times, os advogados de Mohamed estão chocados com o facto da administração de Obama ter procurado bloquear na Segunda-Feira uma acção nos tribunais em favor de Mohamed:

No caso, Binyam Mohamed, natural da Etiópia, e outros quatro detidos intentaram uma acção contra o auxílio que a empresa Boeing prestou ao organizar e planear voos para o programa da administração Bush “extraordinary rendition”, no qual suspeitos de terrorismo foram secretamente levados para outros países, onde afirmam terem sido torturados. [...]
Os documentos do tribunal descrevem tratamentos horrorosos nas prisões secretas. Mohamed afirmou que, durante a sua detenção em Marrocos, “foi agredido repetidas vezes, tendo partido vários ossos, e ocasionalmente, perdendo a consciência. As suas roupas foram cortadas com um bisturi que também serviu para lhe fazerem incisões no corpo, incluindo no pénis. Depois, deitavam-lhe um líquido quente por cima das feridas que tinham sido cortadas no seu pénis. Mohamed era frequentemente ameaçado com violações, electrocução e morte.”

Os advogados da American Civil Liberties Union, que subscreveram a acção, continuam a apelar aos juízes federais para que permitam “às vítimas de tortura ir a tribunal.” Mas a advogada militar de Mohamed, a Tenente-Coronel Bradley, mostra mais preocupação com o estado físico e psicológico do seu cliente. Na Segunda-Feira, a advogada disse a Richard Norton-Taylor do The Guardian que, “Se isto se continuar a arrastar, Mohamed sairá de Guantánamo louco ou num caixão.”
Desde que Mohamed se tornou num assunto Britânico, quando foi detido no Paquistão e o governo do Reino Unido acordou repatria-lo depois dos crimes de guerra contra ele apontados terem sido retirados em Guatánamo em Outubro do ano passado, a Tenente-Coronel Bradley viajou até ao Reino Unido esta semana para se encontrar com representantes do governo britânico alertando-os e pedindo-lhes que acelerem a pressão no sentido da libertação de Mohamed.
Na noite de Segunda-Feira, a Tenente-Coronel Bradley foi entrevistado por Jon Snow no Channel 4 News em Londres, depois da reportagem sobre o caso de Mohamed ter sido divulgada (foi para o ar antes da audiência da acção proposta em San Francisco):



Na sua reportagem com Snow (abaixo citada), a Tenente-Coronel Bradley acentuou que “o problema é que, Mohamed, para além da questão política, para além da retórica e da negociação, ainda se encontra em Gitmo, na Baía de Guantánamo, hoje, onde não existem acusações, perdendo tempo.”



A página de tópicos do Times sobre Mohamed explica que não existem acusações pendentes contra ele em Guantánamo:

Depois da captura de Mohamed, o Procurador então em funções, General John Ashcroft disse que ele tinha sido cúmplice de José Padilla na detonação de uma “bomba suja” nos Estados Unidos. No ano passado, o Departamento de Justiça afirmou que as acusações contra Mohamed sobre a detonação da bomba suja tinham sido abandonadas, e que em Outubro último, todas as acusações foram retiradas.

De acordo com o The Observer, quando a Tenente-Coronel Bradley se encontrar, esta semana, com representantes do departamento de negócios estrangeiros do governo Britânico, “irá pedir a divulgação de 42 documentos secretos que alegadamente descrevem não só como Binyam Mohamed foi torturado, mas que também podem corroborar acusações em como o governo Britânico foi cúmplice neste tratamento.”
A objecção apresentada pelo governo Americano contra a acção intentada por Mohamed e outros detidos no tribunal federal é que, trazendo a público estes dados secretos isso poderá comprometer as relações dos serviços de inteligência com outros países.
No Domingo, o The Guardian publicou excertos do diário que Mohamed manteve durante a sua detenção em Marrocos e no Afeganistão, antes de ser transferido para Guantánamo. Nesta entrada, de 2002, Mohamed escreveu que disse aos seus interrogadores o que ele pensava que eles quereriam ouvir:

Eles fizeram-me uma pergunta. Eu respondi uma coisa. Eles disseram que era mentira. Eu respondi outra coisa. Eles disseram que era mentira. Não conseguia perceber o que é que eles queriam ouvir.
Disseram que alguém lhes tinha contado que eu era o homem grande da Al Qaeda. Eu respondi que era mentira. Torturaram-me. Por fim disse que era verdade. Naquela noite, as mesmas pessoas voltaram. O mesmo homem bateu-me até eu não me aguentar de pé.


FONTE: The New York Times, 10 FEV 2009 (http://thelede.blogs.nytimes.com/2009/02/10/hunger-strikes-continue-at-guantanamo/)

TRADUÇÃO DE: Sara Cruz

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