Binyam Mohamed regressa à Grã-Bretanha depois das provações de Guantánamo



Binyam Mohamed, o antigo residente do Reino Unido que esteve encarcerado na Baía de Guantánamo durante mais de quatro anos, chegou hoje novamente à Grã-Bretanha.

O jacto charter da Gulfstream que trouxe Mohamed do campo de detenção americano em Cuba aterrou na base aérea de RAF Northolt, perto de Londres, às 13h11, pondo finalmente término a um total de sete anos de retenção no estrangeiro.

Pouco antes, uma comissão de boas-vindas que incluía os advogados de Mohamed, Clive Stafford Smith e Gareth Peirce, a advogada militar americana responsável pelo seu caso, Yvonne Bradley, e a sua irmã, Zuhra, chegava ao aeroporto.

Sensivelmente 20 minutos após o avião charter americano ter aterrado, Mohamed, de aspecto magro e movendo-se sem ajuda, caminhou ao longo da pequena distância até ao terminal do aeroporto, rodeado por agentes da polícia Metropolitana e pelos responsáveis do Ministério dos Negócios Estrangeiros que viajaram com ele no avião. Acredita-se que se encontre numa condição de saúde débil após a greve de fome que acabou no início deste mês.

Mohamed, a quem foi dada permissão temporária para permanecer no Reino Unido, foi detido sob a lei antiterrorista britânica, Terrorism Act 2000, mas não foi preso.

Um porta-voz da Scotland Yard afirmou: “[Ele] foi acompanhado por um examinador forense durante o voo para assegurar que está apto para ser detido pela polícia. Terá de aceder a um solicitador, como é prática habitual. A polícia está a conduzir investigações relativas ao caso. Os seus inquéritos estão a ser levados a cabo, como é normal, em concordância rigorosa com a lei britânica.”

Pouco antes de o avião tocar o solo depois de um voo de 10 horas, que incluiu uma paragem para reabastecimento nas Bermudas, a equipa legal de Mohamed publicou um testemunho no qual o prisioneiro agora liberto acusa o Reino Unido de ser conivente com a tortura da qual foi vítima.

“Tenho de dizer, mais com tristeza do que com revolta, que muitos foram cúmplices dos horrores que passei nos últimos sete anos,” afirma. “Para mim, o pior momento de todos foi quando, em Marrocos, cheguei à conclusão de que as pessoas que me estavam a torturar recebiam perguntas e materiais dos Serviços de Segurança Britânicos.”

Acrescenta ainda: “Encontrei-me com o os Serviços de Segurança Britânicos no Paquistão. Fui sincero com eles. No entanto, as pessoas que eu tinha esperança que me viessem salvar, mais tarde apercebi-me que se tinham aliado com os que os que me torturavam.”

“Eu não peço vingança; apenas que a verdade seja conhecida para que no futuro ninguém tenha de passar pelo que eu passei.”

Natural da Etiópia, de 30 anos, Binyam Mohamed acusou no passado o Reino Unido de ter conhecimento do que, segundo afirma, foi a tortura generalizada que sofreu durante o tempo em que esteve detido e diz ainda que o país esteve envolvido no processo interrogatório, enviando e recebendo informação através dos serviços de segurança. Os maus-tratos incluíram, afirma, o golpear dos seus genitais com uma lâmina, por repetidas vezes, enquanto se encontrava em Marrocos.

Mohamed foi preso no Paquistão em 2002 e foi levado para Marrocos por um voo secreto da CIA. Posteriormente, foi levado para o Afeganistão e depois para a prisão americana em Cuba.

Nas suas declarações, Mohamed diz não lhe ter sido conferido o direito de expor publicamente as suas experiências.

“Espero que compreendam que depois de tudo o que passei não me encontro física ou mentalmente capaz de enfrentar os media no momento de chegada a Inglaterra.”, afirmou. “Passei por uma experiência que nunca pensei encontrar nos meus piores pesadelos.

“Antes destas provações, tortura era uma palavra abstracta para mim. Nunca poderia ter imaginado que seria uma das suas vítimas. É ainda difícil para mim acreditar que fui raptado, arrastado de um país para outro, e torturado de formas medievais – todas organizadas pelo governo americano.

“Apesar de querer recuperar e colocar tudo isso num passado longínquo, sei que tenho um compromisso para com aqueles que ainda permanecem naquelas câmaras de tortura. O meu próprio desespero foi maior quando pensei que todos me tinham abandonado. Tenho o dever de assegurar que mais ninguém será esquecido.”

Mohamed comprometeu-se a respeitar várias medidas de segurança no Reino Unido, incluindo a colaboração na elaboração de relatórios periódicos numa estação policial, segundo informação cedida ao The Guardian.

Os seus advogados concordaram com a promessa uma vez que Mohamed “não tem nada a esconder”, disse Stafford Smith, director da Reprieve, organização de direitos humanos. No entanto, Mohamed e os seus advogados rejeitaram uma directiva a exigir o total sigilo que os Estados Unidos tentaram impor, soube o The Guardian.

Stafford Smith afirmou estar “absolutamente” convencido da inocência de Mohamed. “Se alguém o quer levar a julgamento, nas palavras imortais de George Bush, eles que venham,” disse.

O regresso de Mohamed acontece e, simultaneamente, a pressão sobre os governos britânico e americano para que divulguem as provas das alegações de tortura cresce.

Há uma convicção crescente de que existem provas documentais em como governo de Downing Street teve conhecimento dos graves maus-tratos infligidos sobre Mohamed em 2002, quando foi retido pela primeira vez no Paquistão, e em 2004, quando foi levado para Guantánamo.

Documentos americanos que juízes afirmam conter “provas poderosas” relacionadas com as alegações de Mohamed estão a ser suprimidos porque, segundo o que os mesmos juízes afirmaram, David Miliband, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, argumentou que a divulgação destes iria provocar danos na segurança do país. Tal aconteceria, argumenta, porque os Estados Unidos avisaram que poderiam cessar a cooperação com a British Intelligence se os papéis fossem revelados.

Hoje, Gordon Brown defendeu o papel do governo neste caso, dizendo que os serviços de segurança britânico e americano tiveram de ter “confiança” um no outro na troca de informação.

“Neste caso em particular, fizemos tudo ao nosso alcança para assegurar que a justiça seria feita, mas também temos a responsabilidade de assegurar que protegemos as pessoas deste país e que as suas preocupações a nível de segurança são levadas em conta.,” afirma.

O primeiro-ministro recusou-se a divulgar qualquer medida política aplicada ao regresso de Mohamed, mas realçou que “a todo o momento a segurança do país vai ser protegida”.

O procurador-geral americano, Eric Holder, comentou: “A amizade e assistência da comunidade internacional são vitais para o encerramento de Guantánamo, e agradecemos imenso os esforços do governo britânico ao trabalhar connosco na transferência de Byniam Mohamed.”


FONTE: The Guardian, 23 de Fevereiro 2009

(http://www.guardian.co.uk/uk/2009/feb/23/binyam-mohamed-guantanamo-plane-lands)

TRADUÇÃO DE: Marta Pereira

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